Do Copo ao Complexo: A Região da Lagoinha no imaginário de Beagá 17 de julho 2018 – Publicado em: Cidade, Cultura, Lifestyle – Tags: , , , , ,

Todo mundo já ouviu falar do Copo Lagoinha… Tem roda de samba com o mesmo nome e lembra aquela região de Belo Horizonte onde passa um Complexo Viário que muita gente fica perdido, não é mesmo?

As origens desse Copo abaulado e resistente, também conhecido como Copo Americano, é tão intrincada como o Complexo da Lagoinha. Dizem que o primeiro copo abaulado foi criado, nos anos 1940, pela artista soviética Vera Mukhina que desenvolveu um copo nesse estilo que coubesse e suportasse o movimento das máquinas de lavar louça recém-lançadas na extinta União Soviética.

Você deve estar se perguntando agora: “Como assim? É um copo soviético e tem nome de americano?”

Nada disso, o Copo Lagoinha é brasileiríssimo e é campeão de design, estilo e versatilidade. Foi criado pelo empresário paulista Nadir Figueiredo, em 1947, que trouxe dos Estados Unidos da América uma máquina que abaulava copos, daí o nome americano, mas o empresário inspirou-se no design soviético.

Tornou-se ao longo dos anos o copo oficial do pingado, da cachaça, do café, da água, do caldinho, do refrigerante e, inclusive, sendo eleito o melhor copo pra se tomar cerveja do Brasil nos anos 1990. Tem gente que usa o copo para cortar massa de pastel e até como porta lápis.

O sucesso é tanto que, em 2009, o Copo foi exibido no Museu de Arte Moderna (MoMA) de Nova York em uma mostra que reunia produtos que representavam o estilo de vida brasileiro. Estima-se que mais de 6 bilhões de Copos Lagoinha foram fabricados no mundo, que enfileirados permitiriam dar 10 voltas no planeta Terra.

Mas como um copo inspirado em um design soviético e fabricado em uma máquina americana recebeu no Brasil o nome Lagoinha?

Para quem não sabe a Lagoinha (“Lagouinha” para íntimos) é uma região de Belo Horizonte que era ocupada mesmo antes da fundação do Curral Del Rey. Segundo Abílio Barreto o território da Lagoinha era a fronteira da Fazenda do Cercado, local onde surgiu o antigo povoado criado por João Leite da Silva Ortiz em 1711.

Essa antiga região compreende hoje parte do Centro e dos bairros Bonfim, Carlos Prates, Colégio Batista, Lagoinha, Pedreira Padro Lopes, São Cristóvão e Senhor dos Passos. O Copo é tão representativo da história dessa porção de Beagá que foi eleito como o símbolo da região nos anos 1990.

Tudo isto porque o primeiro lugar em que se vendeu o Copo do Nadir Figueiredo em Belo Horizonte foi justamente na Lagoinha, mais precisamente no Armazém dos Irmãos Vaz de Mello, que era situado na Rua Itapecerica nº 1 esquina com Avenida do Contorno nº 1, marco zero da cidade de Belo Horizonte. Lá, em plenos anos 1950, o senhor Quinquim Vaz de Mello fazia questão de demonstrar as potencialidades do copo, que para ele era inquebrável, e, em pouco tempo começou a ser adotado pelos bares e lares de belo-horizontinos.

Naquela época, havia intensa atividade comercial e boemia na Praça Vaz de Mello e o Copo era um dos componentes de socialização de sambistas, malandros, valentões, prostitutas, comerciantes e outras pessoas que por ali passavam ou viviam. Por tal motivo em pouco tempo o Copo se associou ao imaginário da boemia de Beagá.

A parte boêmia da Lagoinha foi demolida no início dos anos 1980 para abrir espaço ao Complexo Viário da Lagoinha, em nome do progresso. O Complexo é um conjunto de eixos viários que ligam as zona norte-sul e leste-oeste da capital e amplia o acesso à Rodoviária e ao MOVE. Diariamente circulam mais de 80 mil veículos por essas vias!

Mas saibam que sob o complexo ininteligível de viadutos, passagens, túneis, trincheira e passarela jaz parte da história e da memória de Belo Horizonte, retratada pelos  escritores Pedro Nava, Plínio Barreto e Wander Piroli. A implosão da velha Praça, em outubro de 1981, foi protestada pelos boêmios que cantaram e acenaram com lenços brancos a canção dos compositores mineiros Gervásio e Milton Horta, intitulada Adeus Lagoinha:

 

“Adeus, Lagoinha, adeus / Estão levando o que resta de mim  / Dizem que é força do progresso / Um minuto eu peço / Para ver seu fim / Adeus, Lagoinha”.

 

Com o Complexo e sem a boemia, a Lagoinha se reinventou preservando a arquitetura e os modos de vida que marcaram os primeiros anos de Belo Horizonte. Abriga marcos como o Cemitério do Bonfim, a Igreja Nossa Senhora da Conceição, o Hospital Odilon Behrens, o Grupo Escolar Silviano Brandão, o Conjunto IAPI, o Mercado, o Senai, o Colégio Municipal, a Rádio Itatiaia, as peixarias, os antiquários, e muita história. É a região que possui a maior diversidade de templos de diferentes religiões da cidade e é o palco de fantasmas e lendas como a Loira do Bonfim e o Aventesma da Lagoinha. Por lá também surgiu a primeira banda da cidade, a Corporação Musical Nossa Senhora da Conceição, ainda em atividade, e o primeiro bloco de Carnaval de rua, o Leão da Lagoinha. Sem falar que é um dos mais belos mirantes que proporciona uma vista panorâmica da Serra do Curral, outro patrimônio de Beagá.

Logo, a região da Lagoinha e o Copo são tão complexos quanto o Complexo. Assim, o belíssimo conjunto de copos, ora lançado pelo Made In Beagá, representa uma inovação no design do tradicional copo e um símbolo do resgate da memória afetiva dos belo-horizontinos. Quem ama Beagá tem que ter esse produto em casa! (Clique aqui e conheça)

Daniel Silva Queiroga: Advogado, professor e autor do projeto Casas da Lagoinha (Instagram: @casasdalagoinha – e-mail: casasdalagoinha@gmail.com)

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